Dia do Software Livre 2004

28.4.2004

Paulo Trezentos



Passando o ano inteiro a discutir dentro da equipa Caixa Mágica as virtudes técnicas do Gnome Vs KDE, do Konqueror Vs Mozilla, do Kmail Vs Evolution, etc... acho que no Dia do Software Livre devemos reflectir sobre algo não técnico.

Os “dias comemorativos” têm duas virtudes: obrigam-nos a reflectir sobre o passado e fazem-nos ponderar sobre o futuro. Quando me pediram para escrever uma reflexão sobre o “Dia do Software Livre” pensei em fazer uma abordagem saudosista ao passado. Podia falar sobre as peripécias da organização da I Workshop de Linux (http://www.gul.pt/Iworkshop/) que ocorreu em Março de 1998 no ISCTE e que foi seguida de uma segunda edição em 1999.

Visitando a página acima, descobrimos que nomes que nos são familiares do Gildot, como o António Coutinho, o Mário Valente, o Francisco Colaço e Carlos Morgado, participaram como oradores nestes primeiros encontros que precederam a Simplinux do Algarve.

Mas no “Dia do Software Livre” acho mais pertinente falar sobre o futuro. E a questão que se coloca é: se a I Workshop ocorreu há 6 anos atrás, onde estaremos daqui a 6 anos?

Será o Software Livre uma “onda” passageira, duradoura é certo, mas passageira?


Para obtermos respostas temos que perceber o que é o software livre e o que o distingue do software proprietário. E o software livre é, e antes de tudo o resto, um modelo de desenvolvimento de software com regras, valores e uma dinâmica própria. Esse modelo está a provar-se imbatível porque do aparente caos que o preside são gerados sistemas funcionais (Linux, Apache,...).

Um produto proprietário que tente lutar contra um produto de software livre que siga eficazmente esse modelo é como a construção de um castelo na areia com a maré a subir: enquanto a onda do mar vai e vem adiciona-se uma pá de areia mas é inevitável que vá desabar mais cedo ou mais tarde.

Não significa isto que o modelo de desenvolvimento de Software Livre se aplique a todas as áreas. Software muito específico para nichos de mercado continuará provavelmente a ser dominado por aplicações proprietárias. Mas quanto a Sistemas Operativos?

Acredito que o modelo do Software Livre vá vingar mais depressa e com mais força do que se pensa e por uma simples razão: economia de mercado.

Vou à Vobis e faço contas de quanto me custaria ter as ferramentas Windows XP e MsOffice num posto de trabalho para uma pequena empresa ou casa . São 1000 euros apenas para 2 programas, o que significa que custaria o dobro do hardware.

Por outro lado, podia alegar-se que realmente 1000 euros é caro mas comprar um carro ainda mais caro, é preciso 10.000, e para uma casa, 100.000.

Contudo, nem no mercado dos carros nem no mercado das casas, a diferença entre o custo real (o custo do fabrico, da publicidade, da distribuição, etc...) e o custo de venda é proporcionalmente comparável ao mercado dos Sistemas Operativos. Ou seja, a margem de lucro de quem produz o sistema é inigualável em qualquer outro mercado.

Uma visita à Forbes 1 diz-nos que a empresa que desenvolve o Windows em 2003 facturou 30.000 milhões de dólares e teve como lucro 10.000 milhões de dólares. Ou seja, por cada 1000 dólares vendidos na Vobis, 300 dólares são lucros.

Não tendo nada contra o lucro, e mesmo por se ser a favor de uma economia de mercado regulada, sabemos que alguém está a pagar de mais por não haver alternativa.

O OS2 não trouxe alternativa. O BEOS não trouxe alternativa. O MacOS não está a trazer alternativa.

Mas o Software Livre, sim. Porque as razões e obstáculos que se colocaram aos anteriores, muitas vezes obstáculos esse levantados por situações de abuso de mercado, não se aplicam ao modelo de Software Livre. Como é que se compra 30% do Kernel do Linux ou se contratam as 500 pessoas espalhadas pelo globo que desenvolvem o KDE?

É a diferença no modelo que o distingue. E, neste dia, aqui ficam algumas das máximas desse modelo.

A máxima número 12 do Modelo de Software Livre, e que está por ser escrita, será qualquer coisa como: “Daqui a 6 anos estaremos no ponto em que hoje acreditarmos a que lá conseguiremos chegar. Somos nós que fazemos o modelo. São muitos que dele usufruem. Seremos todos a comemorar o Dia do Software Livre.”


As 11 Máximas do Software Livre


1 (Objecto) – O Software Livre é um modelo de desenvolvimento, não é uma religião.


2 (Missão) – O Software Livre é um meio, não é um fim.

Ou seja, serve para resolver realidades concretas do nosso quotidiano e não para resolver os nossos problemas de afirmação ou existenciais.
Corolário Geek: há vida para além do Software Livre.


3 (Posse) – O Software Livre não é de Esquerda ou de Direita, do partido X ou do partido Y, é de quem o desenvolve e para quem o utiliza.

Contudo, o modelo é presidido por valores e tem impacto social derivado da sua aceitação.


4 (Terminologia) – Software Livre, Software Aberto, Software de fonte-aberta ou Software de código aberto são tudo faces da mesma moeda.

Isto é, código que respeita as 4 liberdades enunciadas por RMS. Shared-source não é portanto Software Livre ou Software Aberto.


5 (Implicação) – Um software não tem necessariamente qualidade apenas por ser Software Livre.

Apesar do modelo contribuir para a sua melhoria, um mau programador escreverá sempre um mau programa.


6 (Evolução das espécies) – O Software Livre de qualidade prevalece sobre o Software Livre sem qualidade.

Assim, apesar de haver SL com e sem qualidade (Máxima 4) é o primeiro que prevalece e o utilizador final acaba apenas por lidar com esse.



7 (Generalização) – O Software Livre não é o Linux, mas o Linux é Software Livre.

O facto de um Software Livre em concreto ter muito sucesso não nos deve fazer esquecer que “está sentado ao ombro de gigantes”.


8 (Concorrência) – Para uma necessidade é sempre melhor dois projectos de software Livre do que apenas um.

Ou seja, é bom termos Gnome e KDE, Mozilla e Konqueror, OpenOffice e Abiword / Gnumeric porque a concorrência estimula a qualidade.


9 (Custo) – A distribuição do Software Livre não tem de ser gratuita.

Apesar de não ser possível colocar barreiras à livre distribuição, é possível cobrar por o meio em que se coloca o Software Livre. Da mesma forma, o modelo do Software Livre permite cobrar por serviços. Destas duas razões nascem os modelos de negócio rentáveis que alicerçam as companhias que operam neste mercado.


10 (Coexistência) – O Software Livre tende a ser interoperável com software proprietário.

Existem mercados muito segmentados em que o software proprietário continuará a existir. Pela sua natureza aberta, é natural que a interoperabilidade seja assegurada no sentido do Software Livre para o Software Proprietário. O contrário não é verdade.


11 (Prevalência) – Em caso do Software Livre igualar em pertinência o Software Proprietário, então o primeiro será escolhido.

O utilizador tenderá a optar pelo software que melhor responda às suas necessidades numa equação complexa que envolve: preço, funcionalidades e qualidade. Se a equação retornar um valor semelhante entre os diferentes tipos de software, ele escolherá o Software Livre porque terá sempre um maior nível de independência e evolução futura de utilização.










1http://www.forbes.com/finance/lists/38/2003/LIR.jhtml?passListId=38&passYear=2003&passListType=Company&uniqueId=40KA&datatype=Company