A RESPOSTA TAMBÉM ESTÁ NO MODELO



Os grandes desafios técnicos da humanidade nunca se resolveram sem custo e esforço associado.

Os três desafios que sempre alimentaram a minha imaginação são o cálculo da longitude, o último teorema de Fermat e o teste de Turing como prova da inteligência das máquinas e o único ainda não superado. Todos eles são extremamente simples de enunciar mas extremamente difíceis de resolver ou comprovar.

Têm ainda uma coisa em comum: a abordagem à sua resolução nunca foi consensual, surgindo pelo caminho diferentes modelos para o superar.

O cálculo da longitude em alto-mar foi perseguido por dois grupos de cientistas: os “astrónomos” e os “mecanicistas”. Os primeiros, como Newton ou Haley, defendiam que nas estrelas estaria a solução enquanto os segundos - os mecanicistas - acreditavam poder construir uma máquina suficientemente precisa, ou seja, um cronómetro, que permitisse independentemente do estado do céu calcular a longitude. Durante 200 anos, os dois modelos degladiaram-se no campo da ciência arregimentando ideias e teorias que conseguissem convencer o parlamento inglês, que tinha criado um prémio especialmente para este efeito, que o seu modelo era o melhor. O “status quo” da época era favorável ao astrónomos mas, em 1773, Jack Harrison com o seu cronómetro K1 e com a a ajuda de James Cook, venceu o prémio comprovando a infalibilidade do cronómetro como instrumento de precisão.


Marcos Santos, num artigo de opinião no Semana Informática 758 intitulado “A resposta não está no modelo”, defendeu que o open-source não está adaptado às necessidades das empresas. Este colaborador da Microsoft justifica a sua afirmação com o custo do TCO, com o facto do open-source não dispôr de um conjunto alargado de fornecedores e, como o título indica, com o modelo não justificar a decisão.

Existem estudos de TCO para todos os gostos e o mesmo deve ser analisado caso a caso. Foquemos então os dois últimos pontos: fornecedores e modelo.

É indiscutível que hoje, em Portugal, existe um maior leque de fornecedores de soluções Microsoft do que plataformas alternativas. Isto é particularmente acentuado nos sistemas operativos de Desktop, em que - por enquanto - existe um monopólio de facto, e especialmente contrariado em soluções empresariais (Linux no servidor, Apache nos Webservers, Oracle nas BDs, SAP ou Primavera nos ERPs, etc...).

As PMEs portuguesas estão especialmente sensíveis aos fornecedores porque quando concentram todo a tecnologia num único actor (XP, 2003 Server, SQL Server, .NET, CRM 3.0 e Exchange) têm dificuldade em “sair do cerco”. Porque “sair do cerco”, por exemplo para adquirir uma plataforma de email open-source, implica obter novas competências e que naturalmente tem um esforço / custo associado.

Rompido o cerco numa frente, as vantagens rapidamente se tornam claras e progressivamente a nova tecnologia associada ao modelo open-source começa a ser preferida em futuros projectos. Já vi rupturas “ao cerco” serem feitas pelo aquisição de proxy, servidores web ou mesmo pela migração de desktops.

Conheço dois grupos de empresas: as que navegam à vista, e em que cada aquisição apenas é analisada por ela própria e a inércia do momento prevalece, e as que navegam com uma estratégia de TI de médio ou longo prazo.

Para as últimas, e não menosprezando os custos ou a segurança, o modelo de negócio, legal e de desenvolvimento no qual a tecnologia se baseia é importante porque é ele que nos ajuda a prever o futuro da mesma. Ninguém se sente tranquilo em confiar numa empresa que tem o monopólio de um mercado. Seja de telecomunicações, seja de sistemas operativos.

Na semana em que se soube que o “100$ Laptop” proposto por Negroponte (MIT), provavelmente o computador mais barato do mundo, será baseado em Linux e que o IBM System Z9, provavelmente o mainframe mais caro à face da terra, suportará preferencialmente também o Linux, custa-me admitir que em Portugal tenhamos circunstâncias conhecidas pelo Marco Santos mas diferentes das do resto do mundo.

Também em 1700, um cientista que para para o cálculo da longitude escolhesse o lado a militar pelo “status quo” escolheria sem dúvida o modelo dos astrónomos. Era o mais divulgado no início do século XIII.

Um cientista que para o cálculo da longitude escolhesse o seu lado através de uma análise racional de custos / benefícios, não deixaria certamente também de ponderar o modelo que o sustenta.

A resposta não só, mas também, está no modelo.