Paulo Trezentos
Paulo.Trezentos@caixamagica.pt
O mundo é Plano (Tecnológico)
Nem de propósito conseguir-se-ia tamanha coincidência. O livro do momento chama-se o “O mundo é plano” de Thomas Friedman e é precisamente sobre sociedade do conhecimento e inovação. O título alude à queda de barreiras entre países facilitando trocas e partilhas e, naturalmente, tornado-se instrumento de globalização.
Mas simultaneamente o mundo também é feito de Planos, isto é, mapas orientadores que nos ajudam a atingir objectivos. Ou melhor dito, o mundo é feito de “escolhas”, seguidas de “planos” e terminando na “execução” dos mesmos. Escolhas. Plano. Execução.
O Governo em campanha eleitoral escolheu o choque tecnológico como forma de superar algum atraso do país. A “escolha”.
Era preciso então escrever um plano para passar à execução dessa escolha.
E fê-lo bem. Na generalidade, o Plano Tecnológico é um bom documento.
Na verdade, existem três planos tecnológicos: o documento síntese de José Tavares – ex-responsável pelo mesmo, a suposta versão integral do Plano que integra 17 documentos de trabalho e a sua síntese. Este último, é o mais interessante. É o “Plano”.
O objectivo a que que propõe é ser “um conjunto articulado de políticas” baseadas em três campos de acção “Conhecimento, Tecnologia e Inovação”.
Os quadros-resumo que integram o documento ajudam a perceber que políticas estão em curso e as que irão ser lançadas através de medidas coordenadas pelos vários ministérios para cada um desses campos de acção. Está ainda muito claro quais é que são os objectivos estratégicos. Por fim, o melhor está na última página, a 57. Um quadro que quantifica para 2010 quais os objectivos que se pretendem atingir. Por exemplo, 15% da população com diplomas de ensino superior.
É verdade que sobre o melhor p(l)ano cai a nódoa. Eu diria, quatro nódoas. Primeiro, os oito meses que demorou a produzi-lo é exagerado para uma legislatura de 4 anos. Por outro lado, na semana anterior a ser lançado viu o seu coordenador demitir-se. Em terceiro lugar, tenta fazer o “bolo” com as receitas que já conhecemos. E não, como deveria, com uma ruptura e a adopção de tecnologias e processos que possam alavancar o desenvolvimento, como a adopção de Software Livre / Aberto e as outras nove forças descritas no livro de Freedman. Por fim, poderia ainda definir melhor algumas das medidas e explicar como cada medida contribui para os objectivos quantificados.
Será que está tudo feito? Pelo contrário.
O ponto crítico será a sua realização. A “execução”.
Se existem ministérios claramente em velocidade cruzeiro, como o da Ciência com o Ligar Portugal ou o da Justiça com a empresa na hora e o documento único automóvel, existem outros com uma agenda muito pouco tecnológica. Agências e unidades que deveriam ser “pontas de lança” do governo nesta área, como a UMIC, estão com um desempenho irreconhecível. O que pode significar erros de “casting” ou falta de poder político dos seus líderes .
No campo empresarial é já claro que podemos ter casos de sucesso europeus em TI como os MNI na área da saúde, Siemens nas telecomunicações, Caixa Mágica no open-source, Mobicomp e Ydreams na mobilidade, etc...
Mas dos agentes económicos também poderão vir ameaças. As críticas surgidas nos media mais do que reflectem o tradicional costume português de treinador de bancada. Reflectem um certo desânimo pela forma como os instrumentos públicos têm vindo a funcionar.
Estes agentes precisam de perceber, aceitar e acreditar que o Plano Tecnológico não é o mapa do tesouro para fundos inesgotáveis. É antes um mapa de trabalho e suor para todos juntos – empresas, particulares e administração pública – atingirmos uma sociedade mais desenvolvida e justa. O Plano passa por descobrir que o mundo é plano.